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O Relógio de Areia
READING AGE 18+
Weslei aries Moreira
Realistic Urban
ABSTRACT
Capítulo 1
A chuva caía sobre o telhado de zinco como se tentasse, à força, lavar as memórias daquela casa. Bento olhava pela janela embaçada, o dedo indicador desenhando formas abstratas no vidro frio.
Ele não voltava a São Brás há dez anos.
— O senhor vai querer mais café? — perguntou a garçonete, uma senhora de avental encardido e sorriso cansado.
Bento despertou do transe e olhou para a xícara vazia sobre a mesa de formica.
— Não, obrigado, Dona Cida. Acho que já bebi o suficiente para ficar acordado até o ano que vem — respondeu ele, forçando um sorriso.
— É a morte do Seu Inácio, não é? — Ela recolheu a xícara, o pires tintilando. — A cidade inteira sentiu. Ele era um homem bom.
— Era. Era sim.
Bento pagou a conta e levantou-se. O casaco de lã pesava nos ombros, úmido pela garoa que o pegara no trajeto da rodoviária até ali. Saiu do bar, o sino da porta anunciando sua partida para uma rua deserta.
A casa do avô ficava no alto da colina, isolada por um portão de ferro que gemia com o vento.
Bento empurrou o portão. O jardim estava tomado pelo mato; as roseiras que sua avó tanto amava agora eram apenas espinheiros selvagens. Ele subiu os degraus da varanda e girou a chave na fechadura. A porta cedeu com um estalo seco.
O cheiro de mofo e tabaco antigo o abraçou imediatamente.
Ele largou a mala no corredor e caminhou até a sala de estar. Tudo estava coberto por lençóis brancos, como fantasmas de móveis esperando para assombrar quem chegasse.
— Tem alguém aí? — gritou, a voz ecoando mais alto do que pretendia.
Silêncio. Apenas o som rítmico, quase hipnótico, do grande relógio de pêndulo no canto da sala. Tique. Taque. Tique. Taque.
Bento aproximou-se do relógio. O vidro estava rachado. Mas o que chamou sua atenção não foi o pêndulo, e sim um pequeno envelope azul preso entre os ponteiros, parado exatamento às três horas e quinze minutos.
A manhã seguinte trouxe um sol pálido, sem calor.
Bento acordou no sofá, com o pescoço dolorido e o envelope azul ainda fechado sobre a mesa de centro. Ele se sentou, esfregando o rosto. A curiosidade e o medo travavam uma batalha silenciosa em seu estômago.
Pegou o abridor de cartas de prata que estava sobre a estante e rasgou o papel. Dentro, havia apenas uma frase, datilografada em uma máquina antiga, daquelas em que a letra "a" sempre falhava um pouco:
"Eles não sabem o que está enterrado sob a sacristia. Não deixe que cavem."
Bento leu a frase três vezes. Não havia assinatura.
— Ótimo — sussurrou para si mesmo, jogando o papel na mesa. — Bem-vindo de volta ao hospício, Bento.
Capítulo 2
O delegado Noronha tinha aquele tipo de bigode que parecia ter vida própria, movendo-se a cada palavra mastigada. Ele estava sentado atrás de uma mesa que parecia pequena demais para o seu tamanho.
— Você acabou de chegar e já quer exumar o passado, garoto? — Noronha recostou-se na cadeira, que rangeu em protesto.
— Não estou pedindo para exumar ninguém, delegado. Só quero saber se meu avô fez alguma denúncia antes de morrer.
Noronha suspirou, pegando um maço de cigarros amassado.
— Inácio estava esclerosado, Bento. Todo mundo sabe disso. Dizia que ouvia vozes, que via luzes na igreja velha. Coisa de velho sozinho.
— Ele deixou um bilhete.
O delegado parou com o isqueiro a meio caminho do cigarro.
— Que bilhete?
— Uma coisa sem sentido. Mas ele parecia lúcido quando escreveu. A letra estava firme.
— Deixe eu ver.
Bento hesitou. Havia algo no olhar de Noronha, uma sombra rápida que passou por seus olhos miúdos, que o fez recuar.
— Deixei em casa. Mas dizia algo sobre a igreja.
— A igreja está fechada para reforma há meses. O padre Samuel não deixa ninguém entrar lá, nem eu. — Noronha acendeu o cigarro finalmente, soltando a fumaça para o teto amarelado. — Um conselho? Enterre o velho, venda a casa e volte para a capital. São Brás não tem nada para você além de poeira.
Ao sair da delegacia, Bento sentiu que estava sendo observado.
A praça central estava movimentada. Crianças corriam em volta do coreto e pombos disputavam migalhas de pipoca. Mas, do outro lado da rua, parado na sombra da marquise da padaria, havia um homem alto, vestindo um terno cinza que parecia deslocado naquele calor úmido.
O homem não desviou o olhar quando Bento o encarou. Pelo contrário, inclinou levemente a cabeça, num cumprimento mudo e ameaçador.
Bento apressou o passo em direção à igreja. Se o delegado não ia ajudar, ele mesmo descobriria o que havia na sacristia.
Era noite quando ele pulou o muro baixo dos fundos da paróquia.
A lua cheia iluminava o pátio de pedras irregulares. Bento usava uma lanterna pequena, mantendo o facho de luz baixo para não chamar atenção. A porta da sacristia era de madeira maciça, antiga e pesada.
Ele testou a maçaneta. Trancada.
— Eu não faria isso se fosse você — disse uma voz feminina, vinda das sombras atrás dele.
Bento girou nos calcanhares, a luz da lanterna varrendo a escuridão até encontrar o rosto da intrusa. Era uma mulher jovem, de cabelos curtos